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segunda-feira, 10 de junho de 2013

NÃO ADIANTA CORRER!

... é o que ele pensava enquanto caminhava calmamente. As folhas secas que forravam o chão estalavam a cada novo passo, e pular um tronco velho em decomposição era inevitável nesse momento, pois o terreno estava cheio deles. Seu olhar é muito mais misterioso e profundo do que o dos outros animais, e não é apenas pelo fato dele atualmente estar na forma de um gato preto. Ele realmente pode ver coisas que os outros acreditam não existir. Ele é uma dessas coisas inexistentes que estão ao nosso lado. Teria sido melhor você não saber disso.
Não é culpa dele, mas ela nunca vai compreender essas coisas. Está além daquilo que os humanos conseguem digerir psicologicamente. É apenas um ato para saciar suas necessidades de sobrevivência, já que é muito difícil encontrar alguém que queira morrer jovem. Esse realmente não é um de seus desejos, por isso a caçada é necessária. Mas depois de tantos anos ele aprendeu que não é preciso ter tanta pressa. Lógico que como qualquer trabalho (um dos fardos da existência, já que, se você vive, você trabalha), alguns horários deverão ser cumpridos, mas ele ainda tem algumas horas pela frente, e aquele grito de dor que ecoa pelas velhas árvores indica que ela continua fugindo do inevitável.
Depois de alguns passos as marcas de sangue nos troncos das árvores começam a ficar evidentes. Ele começa a passar sua língua pelo corpo, um rápido banho de gato antes de encontrar-se com sua saborosa presa. Será sua terceira vítima nesse quase meio século de uma nova vida. Logo ela não terá para onde correr, assim como sua mãe e seu marido, que já faziam parte dele antes de perceberem o que estava acontecendo. Os pesadelos, sua mais divertida forma de agir, fazem com que as vítimas passem a desconfiar de algo. Pequenas pistas podem ser percebidas por mentes mais atentas, fazendo com que fugas passem a ser o método mais fácil de libertarem-se daquilo que os perseguem enquanto dormem. Inevitavelmente isso gera uma caçada, e ele adora caçar. Aprendeu isso com os nazistas, que sedentos por sangue capturavam centenas de pessoas consideradas “diferentes”. Ele sabe que a humanidade ainda vai viver muitos milênios, mas mesmo assim nada tira de sua cabeça que os humanos eram mais inteligentes antigamente do que são hoje, e muitos acontecimentos estão aí, escancarados para quem quiser ver, que comprovam suas teorias.
A caçada está chegando ao fim. Ela não vai conseguir correr por muito mais tempo, e a ferida em sua perna está doendo cada vez mais. O gato pode enxergar isso. Ele é um ser inexistente que está existindo graças às almas humanas.

Sua respiração está ficando difícil, e a dor, insuportável. Provavelmente ela não vai conseguir fugir por muito mais tempo, pois ele sabe de coisas que ela não acreditaria mesmo conseguindo ver. Talvez ele saiba tudo sobre o futuro. O nosso misterioso futuro que todos têm medo.
Nada parecia real. Primeiro sua mãe começa a perambular pela casa à noite, alegando não conseguir dormir. Sempre assustada, quase não comia, e vivia com uma garrafa térmica de café ao seu lado. Até que o inesperado aconteceu: ao chegar do trabalho ela encontrou sua mãe no sofá, morta e de olhos arregalados. O café já estava frio. Segundo o médico, a causa da morte foi uma parada cardíaca. Mas sua mãe sempre foi uma pessoa saudável, isso não podia ter acontecido de uma hora para outra. Duas semanas depois foi a vez de seu marido. Assim como em sua mãe, a insônia passou a ser algo constante, e já havia três dias que ele não dormia, e também passou a faltar no trabalho. Ele comentava rapidamente sobre algo que viria buscá-lo em seus sonhos. Alguns dias depois, quando chegou do supermercado, encontrou seu marido estirado no chão do banheiro, também de olhos arregalados. Dois funerais em um mesmo mês é algo desumano. O que veio a seguir foram poucos dias de solidão.
Agora ela já percebeu que é ele quem quer pegá-la, aquele lindo gato cujo pêlo é tão negro quanto o manto da Senhora Morte, com seus olhos de esmeralda. Algo nele sempre foi estranho desde que chegou, mas ninguém se importava com isso, pois sua beleza e carinho (algo estranho para um gato de rua) conseguiram cativar a família inteira, até que eles resolveram criá-lo. Nunca souberam de onde veio, mas agora isso já não faz a menor importância. Como ele mesmo disse ao aparecer em seu sonho, “Corra minha doce senhora! Corra o mais rápido que puder, porque eu vou atrás de você. Meu mais novo brinquedo, minha mais divertida caçada está prestes a começar.” Ela sabe que vai morrer hoje.

É chegada a hora do inevitável encontro. Ela já não pode mais correr. Desistiu de viver. Ele vai se aproximando cada vez mais. Sua presa está tão perto que até o cheiro de seu medo pode ser sentido. Ela realmente não quer morrer. Ele realmente não quer morrer. Um deve morrer para o outro sobreviver. O pulo do gato a derruba no chão. A grama amortece a queda, mas não ampara o desespero. A Lua está alta hoje, iluminando o lugar aonde um fim chega, e um novo começo se inicia. Seu pêlo é macio, e seus olhos são lindos, verdes como uma preciosa pedra que todos almejam. Ela está hipnotizada por aquele olhar. Ele está finalmente garantindo mais 50 anos de existência. A respiração dela para, mas seus olhos continuam abertos, fitando o nada na sua frente.
A caçada terminou, e ele mais uma vez se limpa com um relaxante banho de gato. Foi divertido, e o ar está fresco. Talvez ele continue como gato nos próximos anos.


FIM... OU NÃO. 

sábado, 25 de maio de 2013

Esperança de um Contato

Um bater de asas. Uma pena negra que vai gentilmente chegando no seu destino, sendo levada pela brisa gélida do inverno.

Um poço fundo e escuro espera pelo contato vindo de seu exterior. Esquecido ele está. Talvez décadas tenham se passado, mas ele ainda espera. 

E uma doce sombra negra vai chegando cada vez mais perto. 

O Grande Corvo continua seguindo seu destino. 

Flávio Moraes
(02/02/2013)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aquilo que as Folhas Viram na Noite

Ela devia ter pego sua jaqueta, mas nunca conseguia lembrar-se disso. Ao contrário de hoje, o frio nunca vem. O vento gélido leva as folhas secas para uma jornada que pode acabar brevemente quando elas suavemente chegam ao chão, ou simplesmente voam o mais alto que podem, tendo a mais bela visão da noite naquela cidade tranquila, mas inquietante. 

Assim como o coelho branco do País das Maravilhas, ela sempre está atrasada. Nunca consegue chegar no horário, e sempre sai mais tarde do trabalho. Sua mente é um caos que ela já desistiu de ordenar, até porque podemos encontrar muitas coisas perdidas no caos. Coisas perdidas que nos alegram com o retorno, ou que nos assombram, sendo que nunca deveriam terem sido encontradas novamente. As feridas nunca vão desaparecer. 

Aquela sombra e o som dos passos não deveriam estar ali. O desespero também não. Olhar para trás não adianta nada agora, então ela simplesmente anda o mais rápido que consegue. Ou acha que consegue.

Seu corpo começa a tremer e o arrepio subitamente aparece. Ela para bruscamente, e apenas consegue olhar para frente. Uma lâmina gelada pode ser sentida em seu pescoço. A frieza da situação.

Ela devia ter pego sua jaqueta. 

Flávio Moraes
(22/02/2013)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Aquilo que é Sagrado

A gota de suor escorre pelo rosto avermelhado. O brilho do Sol ofuscou a visão em vários momentos da subida, mas finalmente ele está lá, no topo.

Eles dizem que a montanha é sagrada. Ele não sabe se deve acreditar nisso, mas percebe a presença que o lugar transmite. É algo poderoso, que vai além de qualquer coisa que ele já conheceu. O Sol continua forte, brilhando alto durante aquela metade de dia.

O que ele consegue fazer é apenas olhar para o horizonte, para o seco verde das árvores. Ver a terra árida senda levada pelo vento. Ouvir as vozes e suas palavras misteriosas. Ver a Terra mudando.

O som de um pássaro pode ser ouvido por perto. E pelas suas costas um lobo se aproxima. 

Flávio Moraes
(25/01/2013)

PS.: Escrito enquanto ouvia "Cherokee" da Cat Power.